25 de mar de 2010

O “Ethos” da Tradição Reformada e a Cultura Emergente

Os proponentes da teologia reformada foram fortemente impactados pela percepção do Deus Único, Justo e Santo que se revela na Sua criação e com ela interage. Deus indomesticável, livre e Soberano. Senhor da História e que nela cumpre os seus desígnios eternos. Que redime e justifica o ser humano do seu mal e o predestina para uma vida inteiramente santa em todas as suas realizações. Os eleitos estão no mundo como agentes transformadores que atuam em todas as instâncias da vida humana. Ação que reflete a glória de Deus. Que tem na pregação bíblica um veículo para comunicar com profundidade e simplicidade a graça transformadora. Graça que é, também, manifesta no trabalho pastoral que não somente proporciona alento às almas, mas, sobretudo, redireciona a vida. Vida disciplinada e que com destreza cumpre aos ditames de seu Senhor, cujo palco de atuação não restringe-se ao espaço religioso, mas, alagar-se a todos os ambientes da existência humana. Atuação marcada pela simplicidade e negação de toda vaidade.


O ethos reformado é o ethos do temor pelo sagrado e o repúdio pelo profano. Conceitos totalmente rejeitados na cultura emergente. Cultura que exala a liquidez social marcada pelo relativismo moral, religioso e epistemológico. Que tem em seus braços a pluralidade, o secularismo e o narcisimo. Onde o sujeito constitui-se senhor de sua existência e nela estabelece o seu trono; e o semelhante é coisificado e objeto de prazer. Cultura que recorre aos sofistas quando estes já declararam a impossibilidade do conhecimento absoluto e verdadeiro que estabelecem limites e o norte para o saber e o belo. Logo, a máxima de Protágoras “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são.” Obtém êxito na cultura emergente que não considera a possibilidade de verdades absolutas, mas, tão somente a existência de opiniões, boas ou más, melhores ou piores, jamais estabelecendo valor moral como falsa ou verdadeira, logo, tudo é válido para o discurso se faz sentido para o indivíduo que é o centro de sua existência.

Esta sociedade, que desconstroe valores e princípios lançados no passado, se vê com sérios desafios à sua sobrevivência, a medida que o Deus relacional e interventor é descartado e naturalmente outras realidades são estabelecidas como portadoras de significado e valor existencial; relação que agrava a inquietude e a busca por experiências que geram patologias sociais. Basicamente percebidas no consumismo exacerbado e no imediatismo frenético. Os casos críticos conduzem a escória social estigmatizada naqueles que são dependentes químicos e exploram o semelhante. Na mesma escala estão os que cauterizados pelo secularismo fragmentam a vida e compartimentam-na em várias personalidades que correspondem ao ambiente que se encontram.

O ethos reformado deve lidar nesta cultura hodierna. Suas implicações e desafios são colossais, pois a priori é rejeitada e escarnecida, é tida como resquício de um período de obscurantismo e castração do pensamento. O ethos reformado fará sentido e causará sede nos indivíduos a medida que evidenciar com limpidez a graça de Deus manifesta ao longo da história e especialmente na pessoa do Senhor Jesus Cristo, que é conhecida em sua geração, nascimento, vida, morte, ressurreição, ensino, ascensão e retorno porvir. O ethos reformado fará diferença a medida que nas relações interpessoais, familiares, sociais e profissionais for manifesto nas ações de amor, perdão, misericórdia e esperança peculiar do eleito de Deus.